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A primeira mulher fotografada em Boulevard du Temple, de Daguerre

Tipo de projeto

literário

Data

2023

Local

Porto Alegre

As folhas secas do outono poderiam estralar com as rodas do carro se não fosse pela chuva. Os guarda-chuvas nas mãos dos andantes não impediriam o splash baixo do caminhar, e o vento suave borbulharia os galhos de árvores como um adeus. A cidade gritaria uma paisagem imutável da janela do automóvel enquanto você, ansiosa, tentaria memorizar cada esquina e semáforo. As bochechas coradas do calor deixado no restaurante e os ouvidos zumbindo do bate-bate de talheres em pratos, você tentando não esquecer das risadas perdidas no tempo com amigos que estavam ali. Apenas o para-brisa de um lado para o outro imitaria o abanar vivido momentos atrás.

Em silêncio, você rezaria para que a avenida permanecesse igual, e a mesma peça estivesse em cartaz no teatro esperando que você voltasse para matar a saudade. As mãos reviveriam o toque da primeira pele que a tocou bem embaixo do toldo para proteger do sol, mas uma buzina alta lhe mandou para o dia em que você havia caído no meio da rua. Aquela cicatriz ainda doeria. Você desejaria cortar o cabelo curto de novo, olhar no espelho do cabelereiro idoso e dizer: “pinte de rosa, da raiz até as pontas”. Você estaria apavorada com a possibilidade de ter penteados que ainda desconhece, andando em calçadas sem nome sob a influência de bebidas sem sabor.

O inverno trazendo a fumaça de chaminés que você não respiraria. A neve que deixaria a meia úmida conforme você caminhasse em um ritmo contínuo; os fones de ouvidos com melodias famosas transformariam os passos em dança. Seria como se não fosse perambular por ali nunca mais e, muito menos, visitar o quinto andar do prédio cinzento. O mesmo do abajur amarelo comprado na loja da esquina.

Você vai embora e os postes de luz piscam na imaginação, o coração estremece, as artérias pulsam e a respiração fica fácil. Você decidiu deixar as pedras do caminho a guiarem para frente e sussurrou em arco e flecha direto para o céu um novo início sagrado.

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