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Plástico manchado
Tipo de projeto
Fotografia
Data
Abril 2023
Localização
Porto Alegre
Data
março de 2024
Função
literatura original ficção
Tipo de projeto
literário
O dia anterior havia sido difícil. A noite também. Mas não lembrava exatamente o porquê. Quando acordei ainda estava escuro e peguei carona com ele, no carro preto. Não ousei olhá-lo de primeira e senti a antecipação de espiá-lo subir pelo estômago. Ri de algo que disse e observei os automóveis aumentando nas ruas. Perguntei onde estávamos indo.
— É surpresa. Eu descobri esse lugar há pouco tempo.
Não reconheci as esquinas. O sol começou a ficar mais forte, o dia nasceu para trazer novos pensamentos e experiências. Logo, ele parou em uma casa com vitrines de vidro e colunas de madeira. Baguncei seu cabelo cor de areia, desfazendo o penteado simples. Ele fez franziu o nariz.
— É um sebo, com livros e outras coisas. Você adora lugares com possíveis tesouros.
Tinha razão.
Na entrada demos de cara com estantes com objetos de cozinha e decorações. Percebi em seguida que a minha parte favorita estaria atrás do caixa: os livros. Ao redor havia muitas pessoas, mesmo sendo cedo — vendiam café fresco na lateral e a vizinhança, pensei, passava ali antes de iniciar a longa jornada de vinte e quatro horas. Paramos numa estante com diversos potes. Ele parou bem na ponta.
— Esses potes são perfeitos para a minha casa nova — falou carregando três potes velhos de plástico. Eram grandes, precisou carregá-los como se fossem recém-nascidos.
— Tem certeza? Eles parecem manchados. Os de vidro duram mais e não ficam com cheiro ruim depois de um tempo — respondi. Ele não ficou muito contente com a sugestão.
— Quero esses. — Não insisti. Fiquei desanimada de repente. Era sempre assim quando nos víamos, mas continuava querendo ficar entusiasmada toda vez que o encontrava para sairmos juntos.
Andei em volta enquanto ele procurava alguma coisa e tentava entrar na fila que se formava no meio do corredor. O sebo estava mais para um antiquário; ao contrário do que imaginamos de um lugar assim, o estabelecimento era novo e bem limpo. A luz entrava pelas janelas imensas e o branco se destacava. As decorações, no entanto, eram curiosas e me abaixei para notar um elefante de porcelana exposto no chão. Delicado e infantil. Bonito. Inspirado nas festividades indianas, comecei a me questionar por que se desfizeram dele, também lembrei o que minha mãe sempre dizia: “quando se tem um elefante como enfeite de casa, você precisa colocá-lo de costas para a porta. Assim traz sorte”. Por isso, desde pequena os posiciono dessa forma. Ficariam surpresos ao descobrir de quanta sorte estava sendo perdida por aí. Outra coisa me chamou a atenção e virei rápido, minha saia ficou presa na tromba do elefante e quase cai. Fiz uma careta e olhei em volta. Ele tinha visto tudo e lançou um olhar de repressão, decepção e desdém. Fingi que não notara e fui em sua direção para apoiar a cabeça em seu ombro, quem sabe roubaria um beijo. Quando cheguei perto, recuou.
Certo, ele não gostava de contato físico na frente de outras pessoas. Eu entendia, mas uma parte de mim doía toda vez que ele negava carinho. O coração quebrava e, se o meu peito fosse um poço profundo, a água parada lá embaixo seria tristeza. Afastei-me, pensando. Por que era assim? Por que eu me sentia assim? Eu já tentei de tudo e o órgão de sangue continuava estremecendo. A parte dos livros era escura, com luzes baixas e sem janelas para trazer os raios solares que brilhavam do lado de fora. O balcão no centro estava lotado de volumes finos, todos histórias infantis. Abri-os devagar, mas todos possuíam ilustrações feias e tortas. Fiquei mais decepcionada.
Ele apareceu atrás de mim, segurando as sacolas com os potes.
— Encontrou algum? — sussurrou no ouvido. Neguei com a cabeça. Ele passou a tocar nos livros, pegou um que estava entulhado entre outros. — Eu tinha esse quando criança — riu. Dei a volta, ainda pensando. Eu deveria fazer algo. Eu não mereço me sentir assim. Mesmo que ame muito ele.
Após um tempo, saímos da loja e fomos em direção ao estacionamento. Árvores faziam sombra e a casa naquela direção estava toda fechada, quase assombrada. Puxei-o para o lado, escondidos, abraçando com todo o corpo. Colamos-nos das coxas até o pescoço, onde encaixei, finalmente, no ombro.
Respirei fundo para memorizar o cheiro macio dele. Cada minuto que passava eu o apertava mais forte e ele retribuía, balançando de um lado para o outro. Não sei quanto tempo ficamos assim. Eu não queria que acabasse.
Ah, se ao menos pudesse ser sempre assim. Senti-o sorrindo na orelha.
Meus braços permaneceram o segurando, fundindo-o no coração.
— O que foi? —perguntou e beijou meus cabelos.
Segurei as lágrimas. Reuni forças e segurei seu rosto entre as mãos. Ele soube que algo estava errado e procurou sinais por trás do meu choro silencioso. Ele sabia e eu sabia.
— Amor — desviei rápido, mas voltei a me concentrar nele. — Eu estou terminando com você.
A sua cabeça ficou imóvel, encarando-me. E esperei.
esperei esperei esperei
eu esperei cinco segundos e ele segurou minhas mãos. O seu cheiro abandonando os meus sensos. E a nossa história se desfazendo conforme os dedos se separavam.
— Então foi isso?
— O nosso tempo acabou — admiti.
Dirigimo-nos ao carro e ele abriu a porta, entrei.
— Eu preciso achar o meu celular, depois eu dou um jeito de ir embora sozinha.
— Mesmo?
— Sim.
Sabíamos que não duraria muito entre nós. Tive certeza que esse amor passaria a viver apenas em mim.
Achei o celular no console. Ele olhou pela última vez para mim. Não olhei de volta, ainda guardando aquela antecipação do início do dia. Ele não fez nada.
O carro se foi.
E eu chorei alto.

